Sebastião Martins Mestre, o único conquistador do Forte de São João da Barra

O Dia 13 de Junho de 1808, para além de ser o dia de Santo António, marca o dia que a história registou como a única ocasião que o Forte de São João da Barra foi tomado. Não por uma força invasora proveniente do mar, mas por paisanos da própria freguesia da Conceição, liderados por um capitão português que estava afastado do activo por actividades comerciais em Gibraltar, onde se tinha casado e constituído família. O seu nome ? Sebastião Martins Mestre.

Regressado de Gibraltar com a esposa e a filha criança, pouco tempo após a chegada das forças da primeira invasão francesa de Junot ao Algarve em Novembro de 1807, quiçá para se por ao pleno da situação em que se encontravam as suas duas propriedades rurais na freguesia da Conceição, Martins Mestre não terá ficado agradado de ver franceses a tomarem conta da administração e a cobrar impostos sobre todas as actividades primárias, de tal forma que, com a ajuda de “paisanos” e armamento quiçá disponibilizado pela Marinha Real Britânica, tomou o Forte que vigiava a principal entrada marítima à então capital do Reino do Algarve.

Conhecemos estes factos pela carta em que mais tarde o Governador do Reino do Algarve D. Francisco de Meneses relata-os ao príncipe regente D. João, então exilado no Brasil.

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Os “Vaz Velho” de Tavira – a delacção

Manuel José Vaz Velho foi alvo de denúncia de maus tratos à população da Serra de Tavira que foi redigida em reunião de vereação em 1758 e enviada ao rei.

PARTE 2 – A DELACÇÃO DOS MONTESINOS CONTRA O “SENHOR DA SERRA”

Foi referido no artigo anterior, que Manuel José Vaz Velho, filho do cozinheiro real de João V, comprou a propriedade da Serra de Tavira aos descendentes do Manuel Godinho de Castelo Branco, antigo capitão-mor e guarda-mor da Saúde em Tavira a quem a Câmara havia cedido a propriedade por razões de financiamento em 1646. Cerca de 112 anos mais tarde, em 1758 temos notícia que o título havia sido adquirido por Manuel José.

Assinatura de Manuel José Vaz Velho nas atas de vereação de 1758

Em Setembro desse ano, nas atas de vereação que se conservaram do período 1758-62, temos uma entrada na ata muito pouco vulgar, a seguir às assinaturas habituais do escrivão e vereadores segue-se página e meia de assinaturas em cruz que muito provavelmente pertencerão aos campesinos que vieram apresentar as denúncias contra os vexames perpretados pelo “Senhor da Serra”.

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Os “Vaz Velho” de Tavira – ascensão e desvanecimento

Há 300 anos, o magnânimo rei João V teve na copa da sua corte um ilustre natural da Conceição. Por essa graça, a sua família ascendeu socialmente em Tavira durante um século. Primeiro capítulo que serve de introdução à família que erigiu o Palacete da Bela Fria.

PARTE I – INTRODUÇÃO

Placa de travessa na Conceição.

Bem, é chegada a altura de me debruçar sobre aquela que é a única família fidalga originária da freguesia da Conceição – os “Vaz Velho”. Tal como Tavira é o berço de duas outras famílias nobres – os “Corte Real” e os “Nobre”[1] – e, aproveitando o momento actual, em que o antigo palacete desta família está a receber obras para transformá-lo em algo que provavelmente será um “hotel de charme”.

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[1] Unknown. 1989. A familia Nobre – artigo de enciclopédia. Verbo.

A “Typographia Burocratica”

Há 140 anos, uma tipografia em Tavira notabilizou-se por uma ideia inovadora na altura: publicação dedicada apenas a anúncios classificados. Ideia de um parente de Fernando Pessoa. Foi a então “Typographia Burocratica”.

Antigas instalações da Tipografia na Rua Nova Pequena (2). A tipografia ocupava vários edifícios deste lado da rua (ver imagem seguinte) – do 1 ao 3 e do 7 ao 11 (5 portas) – o que dá para ter uma ideia da dimensões das suas instalações.

A Typographia Burocratica foi criada em Tavira, em 1882 por João Daniel Gil Pessoa (3) (4), primo irmão do pai de Fernando Pessoa, com instalações inicialmente na actual rua Jacques Pessoa nº5 e 7 (5). De lá mudou-se para aquelas que vieram a ser as suas instalações de maior duração, na artéria então conhecida por Rua Nova Pequena. Aí ocupou o espaço de 5 portas – quase todo o lado leste da rua.

O verdadeiro aspecto inovador da tipografia de João Gil Pessoa – para além da impressão de formulários, cadernos e outro material de escrita destinados a escriturários como ele próprio – foi o de criar uma publicação periódica dedicada exclusivamente a publicidade, o que hoje chamaríamos páginas de classificados ou páginas amarelas, mas que eram um conceito inovador para época. Essa publicação assumiu o nome Jornal de Anúncios de Tavira. Depois, através de uma rede de correspondentes, alargou o âmbito das publicações, criando novas versões de um Jornal de Anúncios para várias localidades algarvias (6) [1].

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  • (2) actualmente Rua Alexandre Herculano, ao virar da esquina oeste dos Paços do Concelho, onde se encontra a suposta efígie de Paio Peres Correia
  • (3) Empreendedor tavirense, trabalhou na Comarca de Tavira como escrivão, e para além da tipografia criou a Transportadora Tavirense que permitiu as primeiras carreiras entre Tavira e Lisboa e a moagem/panificadora no antigo Convento das Bernardas
  • (4) as escrituras redigidas por João Pessoa, incluídas no acervo documental do notariado de Tavira, estão guardados no Arquivo distrital de Faro, e cobrem um período de 1877 a 1901
  • (5) a rua marginal esquerda do rio, desde a Ponte Romana até à Ponte Provisória
  • (6) Alcoutim, Vila Real, Olhão, Faro, Loulé, Albufeira, Lagoa, Silves, Monchique, Portimão, Lagos, chegando inclusivamente a editar também para Cuba e Mértola, no Alentejo estavam entre as localidades cada uma com o seu Jornal de Anúncos
[1] de Palma, Patrícia Jesus. 2018. TIPOGRAFIA BUROCRÁTICA (TAVIRA, 1882-1912). LIGAÇÕES TRANSLOCAIS DA CULTURA IMPRESSA: GENTES, SABERES E TEXTOS.. Anais do Município de Faro 40 (40):207-226. link

A primeira referência a “Gomeira” num documento

Neste dia do ano de 1272 finalmente Afonso III e a Ordem de Santiago chegavam a acordo relativamente à propriedade de terras e bens no Reino do Algarve. Entre as terras que o rei concedeu à Ordem contava-se a “Herdade da Gomeira”.

Original do Tomo 3 da Chancelaria de Afonso III (folio 29 verso). A azul referência a “Gomeira”. A verde é visível “Tavila”, “Caçalla”, “Castrum Marim” e “Abenfabila”, último alcaide mouro de Tavira.

Já referi nos primeiros artigos deste blog que a referência a “Gomeira” vem desde tempos medievais, sendo o topónimo mais antigo da freguesia, e as ligações da mesma com a Ordem de Santiago, porque supostamente a jurisdição destas terras terá sido concedida por Afonso III em documento régio pouco tempo após a conquista cristã de Tavira. O Foral de Afonso III, datado de 1266, cujo texto se reproduz aqui em português actual, é no entanto omisso relativamente ao topónimo. Após algum tempo de pesquisa, consegui finalmente entender que a concessão à Ordem é feita fora do âmbito do foral, e feita no contexto das terras algarvias que Afonso III pretendia que ficassem na sua jurisdição após negociar com a ordem as terras que teriam sido conquistadas pelos espatários como foram Cacela, Ayamonte e  Tavira. Afonso III não tinha direito pleno sobre o Algarve, porque ainda estava sob a suserania do seu sogro Afonso X de Castela e Leão. No entanto, em 1267, com o tratado de Badajoz, Afonso III vai ver finalmente obter do seu sogro o direito de cedência da província mais meridional de Portugal no reino lusitano. Com esta questão da fronteira luso-castelhana definida, Afonso III vai então tratar com os representantes da Ordem de Santiago de resolver os diferendos relativos aos castelos e terras inicialmente detidos pela Ordem após a conquista dos castelos.

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O Sr. Marcelino

Ao estar a consultar os registos paroquiais da freguesia do fim do século XIX, para poder cruzar com os registos dos soldados da freguesia que foram combater na Flandres em 1917 deparei-me com o registo de baptismo de um senhor que em Cabanas ficou célebre. Trata-se do senhor Marcelino, nascido a 30 de Maio de 1897, que cheguei ao conhecer bem na infância. Já a minha avó, que tinha nascido em 1926 o conhecera e faleceu ainda antes dele em 1998, era adulto feito. Dizia ela que ele tinha 90 anos já na altura (na década de 80) e passeava-se de bicicleta por Cabanas sem contar o peso da idade. Pois bem, como podem bem ver pelo averbamento feito no Arquivo Distrital de Faro (!) o sr. Marcelino viveu até 2003, falecendo com 106 anos de idade e ainda me lembro de ver a reportagem dele na TVI acho que em 1998, já tinha ultrapassado a barreira dos 100 anos e passar a ter direito a usar uma idade com marca de três dígitos. O que me recordo dessa reportagem dizer que ainda que ainda subia ao telhado reparar as telhas da casa. Ele vivia na Rua José Correia do Nascimento, onde fica o restaurante da Grelha. Deve ter sido um caso num milhão, ou em dez milhões, o do sr. Marcelino, ter tido o privilégio de ter vivido em tres séculos diferentes.

Certidão de baptismo do sr. Marcelino José, a 30 de Maio de 1897, na Igreja da Conceição

Uma união de freguesias mas a Santa já não vem a Cabanas

Venho por esta via manifestar a minha estranheza para com o facto de mais uma vez este ano não se ter efectuado o trajecto da tradicional procissão no dia 8 de Dezembro, feriado devotado à padroeira nacional, Nossa Senhora da Conceição, com a procissão desde o local de repouso da imagem, na Igreja Paroquial até à vila de Cabanas. Há registos de que a procissão incluía a descida até à marginal de Cabanas, e se fazia todos os anos desde tempos imemoriais… mas isso terminou. E terminou desde o ano passado. Mas no ano passado ainda encetaram uma “visita” nocturna pouco anunciada uns poucos dias antes do dia feriado em Cabanas.

Traseiras do Igreja. Possível localização do primitivo cemitério.


Mas este ano nem isso sucedeu, viu-se uma procissão muito lânguida, mais curta que o habitual, sem a saída de outros imagens de santos como o São Luís e o São Sebastião, como era costume.
Diz o diz que disse que a Santa da Conceição se zangou com os cabanenses e é ciumenta, por eles terem decidido devotar-se a uma nova virgem, Nossa Senhora do Mar, cujas “Festas dos Pescadores” se realizam em Agosto. E por isso a Padroeira Nacional prefere dar a cara apenas aos seus devotos que moram no lugar outrora conhecido  por “Sítio da Igreja”.

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O figueiral e a vinha dos netos do Corsário do Almargem

Monumenta Henricina é uma obra arquivística que consiste numa compilação de documentos arquivados, a maioria na Torre do Tombo, relativos à época dos Descobrimentos, e mesmo antes desta, ainda em período medieval, no que se poderia chamar de período pré-expansão portuguesa. Foi compilado nos anos 60 pela Universidade de Coimbra . Todos os seus catorze volumes estão disponíveis online tanto no Google Books como no archive.org . Já aqui referi alguns documentos relativos à família Franca que se estabeleceu em Tavira por volta de fins do século XIII, começando por Lançarote da Franca que teria acompanhado Manuel Pessanha na sua vinda para Portugal e, dizem alguns é o Lanzarote Malocello que figura nos anais da História que redescobriu as Canárias para os europeus. Este Lançarote seria genovês, tal como o primeiro almirante da Marinha Portuguesa, e dedicar-se-ia tanto à defesa das costas portuguesas como ao corso. As duas coisas naqueles tempos não estavam separadas.

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A “Mama Gorda” vista do mar

Tive oportunidade de ir navegar pela costa próxima do Sotavento, e ver “finalmente” o “Cerro da Mama Gorda”. Aqui deixo a foto para servir de testemunho da minha e obrigado ao amigo Armindo Conceição por me convidar a acompanhá-lo na sua embarcação de pesca. Para juntar o ouro ao azul, estive numa zona do mar chamada precisamente de “Mar da Mama Gorda”, conhecida pela sua abundância de peixe.

Fica então aqui uma foto com a “sra. Mama Gorda”, conhecida desde há séculos pelos mareantes que deambulam por esta conta desde fenícios, gregos, romanos, vândalos, mouros e finalmente, portugueses.

Cabanas coroada pela Mama Gorda
O Cerro da Mama Gorda é a elevação central da cordilheira da Serra de Tavira. Foto obtida a poucas milhas da costa. O casario é da vila de Cabanas de Tavira.

 

Referências de Conceição de Tavira nas obras de Luís Cardoso (1747-67)

O clero português no século XVIII (para além das finanças régias) precisava de ter uma ideia de quais seriam os seus rendimentos a nível nacional, fruto das concessões e foros atribuídos às ordens militares ou às dioceses (para não dizer “bispos”) pelos forais ao longo dos séculos. Em 1767, o presbítero Luís Cardoso, que já tinha publicado em 1747 o Dicionário Geográfico ou Notícia Histórica de todas as cidades, vilas, lugares e aldeias, rios, ribeiras e serras dos reinos de Portugal e Algarve decide fazer um catálogo em três volumes de todas as paróquias, nomes de elementos do clero. Uma espécie de “lista telefónica” daquele tempo onde inclusive lista o nome das cidades que recebem correio em nome das paróquias rurais a cujo “termo” pertencem. A esta obra chamou Luís Cardoso o nome de “Portugal Sacro – Profano : Ou Catalogo Alfabetico de todas as Freguezias dos Reinos de Portugal, e Algarve … juntamente com as leguas de distincia da Metropoli Do Reino, E da Cidade principal, e cabeça do Bispado, com o numero dos fogos : Noticia das terras do Reino, que tem Correio, e as que o não tem, de que Correios se servem“. Ora o termo de “Nossa Senhora da Conceição” aparece duas vezes, uma no volume 3 na lista das paróquias que não tem lugar para entregar correio e volta a aparecer no volume 2, numa entrada em conjunto com a outra paróquia também de nome Conceição no Algarve, mas situada em Faro. Continuar a ler “Referências de Conceição de Tavira nas obras de Luís Cardoso (1747-67)”